AURA Festival – 5ª edição

A 5ª edição do Aura inicia um ciclo de programação artística, até 2021, dedicado à conexão entre a Arte da Luz e o Meio-Ambiente e ao modo como humanos e não humanos se relacionam numa multiplicidade de interdependências dinâmicas e solidárias, desde o passado ao tempo futuro. Se os humanos se encontram hoje numa situação vulnerável face à iminente falência dos sistemas de suporte à vida, e se eles detêm, igualmente, a capacidade de inverter os rumos da designada “era do Antropoceno”, então os processos de transformação ecológica - colapso ou regeneração - encontram-se em grande medida dependentes do sentido que nós, consumidores, cidadãos, grupos, espécie, atribuímos agora à nossa própria existência e ao lugar que ocupamos no cosmos. 

 

O cenário noturno da paisagem cultural de Sintra, da Volta do Duche à Quinta da Regaleira, será transfigurado pela Arte da Luz através de dez obras originais: projeções multimédia, instalações audiovisuais interativas, esculturas de luz e biomiméticas que, ao longo do percurso, irão permitir novos encontros e provocar o espanto no espaço público e a valorização do património da vila. Todas estas intervenções necessitam da obscuridade da noite para poderem ser vistas e experienciadas. É assim que, para nós, a luz se constitui como linguagem para entender o mundo. 

 

Aos artistas convidados para esta edição foi pedido que criassem uma obra relativa ao tema do festival e que, simultaneamente, desse também sentido ao lugar específico para onde foi concebida. Para tornar possível este desígnio, trabalhamos de forma transdisciplinar com artistas, cientistas, arquitet@s e artesãos, renovando elos criativos entre tecnologia, experiência, conhecimento, emoções, ética e estética. Caso singular foi o de Luke Jerram, convidado a apresentar uma obra que celebra o planeta Terra e que tem circulado por todo o mundo.

 

Pela primeira vez em Portugal, GAIA, de Luke Jerram, chega ao maravilhoso vale do Rio do Porto. É um globo terrestre com 7 metros de diâmetro - 1,8 milhões de vezes mais pequeno que o planeta - e que, visto a uma distância de 211 metros, tem exatamente a mesma dimensão referida pelos astronautas quando, pela primeira vez, a viram a partir da superfície lunar: um globo azul, suspenso no espaço negro. Segundo os seus relatos, esta visão despertou uma sensação de pertença e de profunda interdependência entre todos os sistemas vivos, renovando uma responsabilidade e uma incontornável preocupação face às questões ambientais. 

 

Ao redor de GAIA, Markus Jordan, um artesão da arte da luz, apropria-se de um fragmento local do solo terrestre para criar, de forma artesanal, uma topografia da paisagem que apenas na aparência parece uma imagem gerada por um computador. 

 

Colmeia é uma instalação áudio e vídeo da autoria de DJ Johnny e que irá acolher autênticas lendas vivas da cena musical e visual nacional: Dj Tiago, Vj Luís Lázaro, Dj Skalator, Vj Miguel Osório, Dj Johnny, VJ PTV, Dj Wize e Vj Uliarud Uliarud. Situada no Aura Lounge, esta instalação reforça a importância de trabalharmos em conjunto pela defesa da biodiversidade no planeta. Cerca de 85% das plantas com flores dependem de polinizadores como as abelhas. Se o ciclo se quebra, os ecossistemas e a biodiversidade estará ameaçada, como acontece atualmente. 

 

Torsten Muhlbach planta, literalmente, um arco-íris no Jardim dos Castanheiros, tangível e contrastante com a noite escura. Numa linguagem pop-art, a instalação “Rainbow” joga com o fenómeno de luz natural do arco-íris. Quando o visitante se posiciona num ponto específico, com a fonte lumínica nas suas costas, pode então ver a luz dividida nas suas cores e um arco-íris noturno irá aparecer. 

 

O mapeamento vídeo interativo assume particular destaque nesta edição. Oskar&Gaspar, Grandspa´sLab, Matthieu Tercieux e Kosuta vão ocupar fachadas e muros que revelam também a riqueza imensa do património da vila: Miradouro dos Castanheiros, Palácio Nacional de Sintra, Igreja de São Martinho e Largo Carlos França. Os visitantes farão nascer flores sobre uma parede vegetal projetada sobre um muro de pedra, participam numa derrocada virtual de um monumento histórico, para experimentar a sensação de vazio e desorientação na ausência da memória, simulam um futuro em que os vestígios da vida marinha serão apenas embalagens de plástico, ou participam numa projeção interativa sobre a Água, em que cada visitante define a dinâmica e o ritmo deste ambiente uterino em função da silhueta projetada. 

 

Uma escultura biomimética de grande escala, do coletivo artístico Error43, encerra o percurso na Quinta da Regaleira. Nasci Nasci explora o que aconteceria se colocássemos um novo organismo tecnológico dentro da natureza, e de que forma poderia um sistema beneficiar o outro, em simbiose perfeita; um sistema inspirado pelos processos naturais, pelo invólucro bacteriano, num design semelhante a um esqueleto que realiza movimentos com um mínimo de energia. A obra propõe a criação de três criaturas robóticas que são ativadas pela circulação de energia. O sistema (depósitos, tubos e criaturas) irá interagir com o jardim, os deuses da Regaleira e os visitantes, evocando a sugestão de um futuro próximo onde se torna possível viver em constante diálogo com o ambiente.

 

Dialogando com a arte, a ciência e a tecnologia, as práticas artísticas evidenciam a importância crescente de uma reflexão sobre as dimensões e consequências das transformações planetárias provocadas pelos humanos. Não existe uma solução global para a perda da biodiversidade, das alterações climáticas, da escassez e da poluição da água, nem tão pouco existe consenso em torno da ambígua oposição entre cultura e natureza - o pecado original, a separação entre o espírito e a matéria. Por isso reafirmamos a importância de trabalhar em registo transdisciplinar, com artistas, investigador@s, arquitet@s e artesãos, renovando elos entre as possibilidades da tecnologia, da experiência, do conhecimento, das emoções, da ética e da estética.  

 

Se a crise ecológica é o resultado do capitalismo global unificado à escala do planeta, apesar de todo o conhecimento acumulado nas últimas décadas, sabemos que já não são só os não-humanos que estão em risco, mas a própria humanidade, enquanto parte integrante do ecossistema global. Que sinergias serão doravante necessárias para que os mundos possíveis se tornem realidade? 

 

Patrícia Freire 

Diretora Artística

Sintra 2019